A influenciadora, maquiadora e perita Karen Bachini, que é criadora de conteúdo digital há muitos anos, anunciou recentemente a criação de um mail club (clube da carta), um formato de entrega de produtos por correios muito popular entre artistas, designers e criadores de conteúdo.
Existem diferentes formatos de clube da carta, que normalmente são oferecidos em assinaturas mensais, onde o consumidor recebe todo mês uma caixa com itens e uma carta, algumas empresas oferecem clubes da carta de livros, outras de queijos e vinhos, outras de doces, mas as mais comuns são as de papelaria, e essa era a proposta de Karen também.
Com itens de papelaria, entende-se desenhos, adesivos, agendas, cadernos, pinturas, ilustrações, artesanatos ou figuras para colorir, por isso é tão comum entre artistas, que vêem em clubes da carta uma alternativa de aumentar a renda e fidelizar o público.
Além de influenciadora, Karen Bachini também já atuou como tatuadora, ofício que exige a capacidade de desenhar, e também já havia mostrado em seus conteúdos alguns desenhos, ainda que amadores, sendo assim, não foi necessariamente uma surpresa quando ela anunciou seu próprio clube da carta.
O problema começou quando os assinantes começaram a receber os produtos, e ao não gostar dos resultados, publicar nas redes sociais, levantando dúvidas quanto a autenticidade dos desenhos que, de acordo com Karen, foram feitos por ela própria.
Karen Bachini e um desenho supostamente feito com auxílio de IA (Fonte: IG)
As imagens possuíam inconsistências incomuns mesmo em artistas iniciantes, em um dos desenhos de uma menina, o caule de um morango está unido ao cabelo da personagem, já em outro desenho, também de uma menina, foram observadas fortes semelhanças com uma imagem publicada no Pinterest antes do lançamento de Karen Bachini.
Seguidores acusaram a influenciadora de propaganda enganosa, de mentir sobre a autoria dos desenhos e de praticar preços abusivos, pois a assinatura do clube da carta de Karen ficava entre 120 e 150 reais, a depender do plano e do método de compra, e a situação rapidamente se tornou uma grande polêmica.
O debate em torno do uso de Inteligência Artificial (IA) para geração de materiais como desenhos, pinturas e textos é contínuo e cresce cada vez mais, existem várias questões em torno desta prática que se torna comum não somente entre pessoas mas por parte de empresas também.
As ferramentas de Inteligência Artificial precisam consultar outros materiais que foram produzidos por seres humanos (artistas, escritores, acadêmicos, etc), utilizando-se da propriedade intelectual alheia sem prévio aviso ou consentimento, quase como um plágio, mas de múltiplas fontes diferentes.
Isso levanta a questão ética e moral envolvida em se apropriar do que foi feito por terceiros sem permissão, e pior ainda, cobrando por isso, ou seja, gerando capital em cima de algo que pertence a outro alguém, que foi feito por outra(s) pessoa(s) e alegando se tratar de algo autoral.
Ademais, a Inteligência Artificial precisa ser treinada, e isso exige data centers (centro de dados) que realizem o processamento de todos esses dados e arquivos, o que causa degradação ambiental, pois gasta altos volumes de água, prejudicando comunidades e o meio ambiente.
Sendo assim, a dúvida que fica é, vale a pena prejudicar o meio ambiente para geração de materiais "inúteis" (que não agregam em nada a sociedade, pois sequer possuem valor cultural e artístico) como textos e desenhos por parte de ferramentas de Inteligência Artificial? Não deveria haver mais critérios e controle quanto a esta exploração?
E por fim, o aspecto de mérito por trás de materiais gerados por Inteligência Artificial também é relevante, e chega a ser um pouco engraçado, pois pessoas que escrevem prompts para a ferramenta e simplesmente baixam os arquivos e materiais gerados alegam coisas como "usei IA mas a ideia é minha" ou "a ferramenta não faz nada sozinha" ou "a IA é uma ferramenta como qualquer outra".
Suponhamos então a seguinte situação, um cliente procura por uma confeiteira para fazer o pedido de um bolo, e no pedido escolhe o sabor e o tipo de recheio, assim como a cobertura e a decoração, enviando até mesmo algumas imagens de referência semelhantes ao resultado que gostaria receber. A confeiteira, então, faz o bolo conforme orientações do cliente, e após pronto lhe entrega, o cliente verifica o produto final, o aprova e leva para sua casa.
O bolo foi feito pelo cliente? É correto que o cliente diga a outras pessoas que o bolo foi feito por ele? Afinal, as ideias quanto aos sabores e a decoração vieram do cliente, mas não foram executadas por ele. Vamos um pouco além, esse cliente pega esse bolo que encomendou, parte em fatias e começa a vendê-las, alegando que o bolo foi feito por ele, simplesmente porque teve a ideia de encomendá-lo. Isso é justo? É honesto com quem compra?
O bolo foi feito pela confeiteira, todo o mérito por trás da produção pertence a quem o fez apenas, o cliente foi quem deu as ideias, mas não tem nenhum direito sobre as receitas utilizadas, ou técnicas de confeitaria aplicadas, muito menos possui o conhecimento necessário para preparar o bolo por si mesmo.
"Com a IA agora qualquer um pode ser desenhista!" Não, o desenhista permanece sendo aquele que conhece os fundamentos do desenho (perspectiva, anatomia, cores, etc) e sabe colocá-los em prática para fazer um desenho autoral, com seu próprio estilo. Uma pessoa que pede que a IA gere um desenho não é desenhista, assim como a pessoa que rascunha um desenho e pede que a IA finalize, ou a que envia desenhos de artistas de verdade para a IA plagiar, não são desenhistas também.
"Com a IA agora qualquer um pode ser escritor!" Não, os escritores permanecem sendo aqueles que possuem capacidade de construir e estruturar textos de diferentes gêneros, uma pessoa que escreve um prompt pedindo um texto pronto para uma ferramenta tecnológica não é escritor.
"Com a IA agora qualquer um pode fazer seu próprio site!" Não, fazer um site exige conhecimentos de programação, pegar um modelo pronto do Google Sites, Blogger, Canva ou qualquer outra IA não torna ninguém um produtor de sites, a pessoa que faz isso está apenas pegando um site programado por outro alguém e o preenchendo e personalizando ao seu gosto.
O maior problema de pessoas que geram artes, desenhos, textos, dentre outros com Inteligência Artificial, é a falsa impressão de que leigos e ignorantes são intelectuais e cultos, que aqueles que não tem criatividade nem técnica são artistas, mas essa ideia é equivocada, para exercer qualquer ofício, é necessário qualificação, conhecimento, ou no mínimo alguma expertise, e a IA não muda em nada isso.
Não se sabe se Karen Bachini de fato usou IA para fazer os itens do seu clube da carta, mas é fato que muitas pessoas não estão dispostas a pagar para adquirir quaisquer materiais gerados por IA, pois dá a impressão de que é algo sem valor nenhum.
"Não adianta fazer por conta própria e ficar ruim!" Adianta sim, é melhor um material humano com defeitos e pontos a melhorar, do que um material "perfeito" feito por IA, porque no material feito por um ser humano houve algum esforço por trás, ainda que o resultado não seja excelente, mas no gerado por IA, a impressão é de que qualquer um faz, que não houve esforço algum.
Ao tentar fazer algo que ainda não se domina, no início os resultados não são bons, porque ninguém nasce sabendo, é necessário aprender, alguns possuem pré-disposição natural e inerente para fazer algo bem, como cantar, desenhar ou escrever, mas todos precisam se dedicar para conseguir bons resultados.
Os erros servem como aprendizado, pegar o erro e pedir a uma ferramenta tecnológica para "consertá-lo" impõe uma barreira ao desenvolvimento do indivíduo, pois a pessoa não melhora, o correto é entender onde errou e corrigir o erro por conta própria, para que dá próxima vez faça da maneira correta.
Aprender leva tempo, pular etapas só prejudica a quem o faz, a Inteligência Artificial não substitui o saber humano, pois é justamente a propriedade intelectual de pessoas reais que alimentam a ferramenta para que as respostas dos prompts sejam enviadas ao usuário.
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