Billie Eilish: "pais são preguiçosos, é por isso que eles enviam os filhos para a escola"
Em 2019, Billie Eilish, cantora estadunidense de enorme sucesso que venceu 10 Grammys e vendeu 80 milhões de álbuns em todo o mundo, concedeu uma entrevista a Pitchfork, em que deu a seguinte declaração:
"[...] Quero dizer, existem muitas maneiras de fazer isso. Acho que algumas pessoas fazem do jeito errado, o que apenas deixa sua vida horrível, miserável e tediosa. Isso é principalmente porque seus pais são preguiçosos. É por isso que eles enviam os filhos para a escola, em primeiro lugar. [...]"
Billie Eilish (Fonte: CNN)
Apesar de já fazer sete anos desde que essa entrevista foi concedida, recentemente as declarações de Billie voltaram a viralizar nas redes sociais e chamar a atenção do público, principalmente devido ao teor das falas e da intenção por trás do fato de chamar pais de "preguiçosos", por não fazerem as coisas como ela pessoalmente acredita que deveriam.
O também cantor Charlie Puth, compartilhou um vídeo originalmente postado no TikTok, cujo conteúdo afirmava que Billie Eilish era sem noção, se baseando nas diferentes realidades que muitas famílias apresentam, e a disparidade de condições necessárias para a prática do homeschooling.
E Charlie Puth não foi o único, muitos outros usuários de redes sociais, mesmo que anônimos, também expressaram suas opiniões, se posicionando contra as palavras da artista, principalmente por considerarem as falas "elitistas" e "insensíveis".
Quando a polêmica é trazida para o Brasil, a situação se torna ainda mais interessante, devido ao fato de que no país o sistema chamado "homeschooling" é ilegal, e só pode ser aplicado em casos muito específicos, com permissão judicial.
O fato é que, a escola no Brasil não é apenas um ambiente de ensino, mas também uma ferramenta de assistencialismo estatal, muitas crianças frequentam a escola para ter todas as suas refeições garantidas, usam o material escolar dado pelo Estado porque os pais não podem comprar e até mesmo utilizam o uniforme escolar como roupa casual no seu dia a dia.
E não só isso, em muitas famílias, a escola é também uma rede de apoio para aqueles que precisam trabalhar e não tem com quem deixar seus filhos, pois se carateriza como um ambiente seguro em que o menor pode permanecer por longas horas sob a supervisão de um adulto responsável.
No entanto, pessoas que vivem essa realidade não são necessariamente preguiçosas, até porque, nascer pobre não é uma escolha para ninguém, ainda assim, alguns alegam que"se não tem boas condições financeiras é melhor não ter filhos".
Esse discurso, porém, também não se sustenta em uma realidade que além de sexo irresponsável, o Brasil conta também com anti-concepcionais que podem falhar, abuso sexual e prática de aborto criminalizada, nem todas as crianças no Brasil foram desejadas e planejadas por seus pais, muitas, na realidade, foram uma "surpresa desagradável" na vida de alguém.
Além da questão de condições financeiras, a problemática do homeschooling também vai um pouco além, pois nesse sistema educacional, a criança e o adolescente são educados em casa por seus pais ou pessoas contratadas por eles.
Mas isso faz com que, muitas vezes, o indivíduo esteja exposto apenas ao que seus pais julgam necessário e correto, e nesta perspectiva, existe uma forte tendência para que se torne alienado, intolerante e ignorante quanto as diferenças e a diversidade socio-cultural de sua comunidade e país.
A escola pública é uma amostra da sociedade, neste espaço existem várias pessoas, de diferentes culturas, religiões, etnias e estilos de vida, e é com a convivência diária com essas diferenças, que as pessoas aprendem sobre respeito, empatia e solidariedade, além é claro, a tolerância.
Ademais, o homeschooling também pode ser uma alternativa especialmente atraente para pais moral, psicológica ou sexualmente abusivos, pois controlando a educação dos filhos na própria casa, as chances de serem denunciados diminui, já que menos pessoas terão acesso aos menores, em uma escola existem equipes multidisciplinares lidando com os alunos.
É muito comum que escolas façam denúncias a assistência social, ao conselho tutelar e a órgãos e autoridades de proteção a criança, ao adolescente e ao vulnerável quando os agentes educacionais (professores, inspetores, monitores, orientadores, coordenadores, diretores, etc) percebem indícios de abuso no corpo ou no modo de agir e reagir do menor.
Por mais que, para Billie, a experiência com o homeschooling tenha sido extremamente agregadora e revigorante, não necessariamente esse é um formato que irá funcionar para todas as pessoas, em uma escola, mesmo que pública, se aprende muito sobre ciências, artes, linguagens e, principalmente, humanidades.
Claro que a escola também tem seus lados podres, como o bullying e o abuso por parte de agentes educacionais como professores, mas como já mencionado, o abuso e a violência também podem estar dentro de casa, e nestes casos, é mais difícil denunciar e conseguir ajuda, se seus algozes são seus próprios pais.
Por fim, vale ressaltar que, como já tratado, essa entrevista é bastante antiga, Billie Eilish tinha apenas 17 anos, era apenas uma adolescente e, obviamente, imatura sobre inúmeras questões de mundo e de sociedade, justamente por conta da idade.
Hoje, já fazem sete anos, quase uma década, que ela deu essas declarações, e é bem provável que sua mentalidade tenha amadurecido e mudado com o passar do tempo, mas mesmo que não, ela tem o direito de expressar sua verdade e ponto de vista sobre o assunto.
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