A empresária Virgínia Fonseca surpreendeu o público ao revelar que criou, em parceria com uma empresa de tecnologia, um chatbot de Inteligência Artificial (IA) que simula sua personalidade para responder a prompts e mensagens enviadas por usuários, e que oferecerá planos mensais que variam entre R$29,90 e R$89,90 para os interessados em interagir com a ferramenta.
Empresária e influenciadora Virgínia Fonseca (Fonte: IG)
O projeto gerou debate nas redes sociais e parte do público questionou a saudabilidade por trás de um serviço como esse, em que pessoas fingem estar interagindo com uma celebridade e conversam sobre diferentes assuntos com um robô que finge ser alguém que existe na vida real.
Sabe-se que muitas pessoas atualmente conversam com chatbots de IA para fazer desabafos e pedir opiniões e conselhos, sendo que em alguns casos, há até quem use a ferramenta para simular "sessões de terapia", relatando traumas, problemas e dificuldades, além de sofrimento emocional em busca de acolhimento e apoio.
No que se refere a influenciadores, a razão pela qual essas personalidades se tornam tão populares online é que seus seguidores se identificam com eles de alguma forma e acompanhar sua rotina os faz se sentir mais próximos; no caso de Virgínia, por exemplo, a maior parte de seu público são mulheres de classe C e D.
Virgínia construiu boa parte de sua audiência e reputação expondo sua vida pessoal, seu casamento, relacionamento com o marido, seus filhos e a rotina familiar como um todo, uma realidade que faz parte da vida da maior parte das mulheres de baixa renda e assalariadas que a seguem, com a única diferença de que a influenciadora é rica e suas seguidoras passam longe disso.
O público que segue, acompanha e consome Virgínia Fonseca a vê como uma figura inspiradora e digna de se inspirar, uma mulher brasileira e batalhadora que venceu na vida por mérito próprio, uma mãe que se esforça para dar o melhor aos filhos sem abrir mão de si mesma, de suas vontades e sonhos pessoais, e isso é o que muitas dessas mulheres gostariam de poder fazer também.
A realidade, no entanto, é outra bem diferente, Virgínia usa a imagem dos filhos para ganhar engajamento, ainda que coloque as crianças em situações que os expõe de forma negativa, como quando postou fotos do filho caçula, na época um bebê, internado em uma UTI devido a um quadro de bronquiolite aguda, e depois exibiu o número de visualizações que a publicação atingiu e agradeceu ao público.
Em outra ocasião, exibiu conversas que teve com a psicóloga de sua filha do meio, relatando o que a criança disse para a profissional em caráter de terapia numa live cujo objetivo era vender produtos da marca de cosméticos da qual é sócia, a We Pink.
No que se refere a sua fortuna e sucesso profissional, há controvérsias quanto a isso ter sido conquistado por mérito próprio da influenciadora, já que várias vezes ela fez publicidades enganosas, como de óculos de sol vendido em um site que não entregava nada ao consumidor, e não bastando isso, Virgínia faz publicidades recorrentes de bets (apostas em jogos de azar), como o "jogo do tigrinho" da plataforma Blaze, tendo sido convocada a depor na CPI das bets, e para falar a verdade, é quase o único tipo de anúncio que ela faz em suas redes sociais, pois sua imagem é fortemente associada a descredibilidade, de modo que marcas que vendem serviços e produtos de outras naturezas optam por não se associar a ela temendo por sua reputação.
A marca de cosméticos, da qual Virgínia é sócia, We Pink, também coleciona polêmicas próprias, como o fato de estimular vendas e fazer anúncios sem ter estoque de produtos para entregar ao cliente, levando o público a fazer a compra e demorar a receber o produto, isso quando simplesmente não recebe nada ou o produto chega avariado, não só isso, até pouco tempo atrás o SAC (serviço de atendimento ao cliente) da empresa era totalmente automatizado, não tendo nenhum tipo de suporte humano disponível ao consumidor.
Só no ano de 2024 foram feitas mais de 90 mil reclamações contra a marca no site Reclame Aqui, e além disso, recentemente a influenciadora passou a ser investigada por suposto envolvimento com a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), por conta de movimentação financeira anormal e suspeita de lavagem de dinheiro também relacionadas a We Pink.
Mas ainda assim, as seguidoras de Virgínia são devotas e fiéis a influenciadora e ao seu nicho de conteúdo, e é neste cenário que surge a dúvida: será que é saudável, se tratando do aspecto mental e emocional e do contexto socio-cultural em que essas pessoas vivem, que elas contratem e interajam com um chatbot de IA que imita a influenciadora?
Bem, isso só o tempo dirá.
Vale lembrar também que serviços de chatbots interativos de IA já geraram controvérsias antes, por exemplo, o adolescente Sewell Setzer tirou a própria vida após se apegar a personagem de chatbot de IA da startup Character.AI, que já teve parceria comercial com a Google, o garoto mantinha interações românticas e sexuais com o robô antes do desfecho trágico.
Outro caso chamativo envolve o Chat GPT, que é o chatbot de IA mais popular da atualidade, e aconteceu em 2025 quando o jovem de 16 anos Adam Raine solicitou informações sobre auto-mutilação e suicídio e a ferramenta as ofereceu abertamente, em vez de recusar e orientar o adolescente a procurar ajuda, tendo até mesmo rascunhado uma carta de despedida em uma das respostas dadas ao rapaz.
Esta também não é a primeira vez que Virgínia, que é a maior influenciadora digital do país, toma uma iniciativa como essa, em que cobra para que seus seguidores possam ter contato consigo e interagir de forma mais próxima com sua personalidade.
Em 2019 ela ofereceu uma assinatura mensal que custava R$19,90 para que 500 seguidores pudessem ter acesso ao Close Friends (recurso que permite criar uma lista se seguidores exclusiva para acessar os stories e notes) do seu Instagram. Também cabe informar que oferta de um serviço como esse viola as diretrizes da comunidade da plataforma, mas de toda forma, atualmente a influenciadora já não oferece mais esse serviço.
O impacto que um serviço como esse chatbot de IA que imita Virgínia causará em seu público, já composto em maior parte por mulheres e mães, sendo muitas pobres e em situação de vulnerabilidade, pode ser considerado incerto, mas a torcida fica para que ninguém seja prejudicado por essa nova empreitada da influenciadora.
Se você está precisando de ajuda, existem alternativas para conseguir apoio:
CVV (Centro de Valorização da Vida): ligue 188;
CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): busque apoio na unidade mais próxima de você, existem equipes multidisciplinares para te amparar;
UBS (Unidade Básica de Saúde): visite o posto de saúde do seu bairro, além de psicólogos o local também dispõe de grupos de apoio e terapia em grupo;
Mapa da Saúde Mental: consulte o mapa da saúde mental para encontrar o local de apoio mais próximo a você.
A LIBRISIL
Librisil é um blog mantido pela escritora independente Sil Carvalho, e leva o mesmo nome da loja de produtos literários da autora.
Sil escreve livros de romance e já possui dois originais publicados, sendo que, em ambos a maternidade é explorada de maneira crua e realista, retratando as belezas, e também as nuances que a envolvem, sem romantizá-la. E em agosto de 2026, está previsto o lançamento de mais um livro de romance, e desta vez, a maternidade será tema central, e não secundário como nos dois primeiros.
Você pode apoiar este trabalho, dando uma olhada nos produtos literários disponíveis aqui.
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