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Destaques

Billie Eilish: "pais são preguiçosos, é por isso que eles enviam os filhos para a escola"

Em 2019, Billie Eilish, cantora estadunidense de enorme sucesso que venceu 10 Grammys e vendeu 80 milhões de álbuns em todo o mundo, concedeu uma entrevista a Pitchfork, em que deu a seguinte declaração:

Os prejuízos causados a mães e mulheres pela romantização da maternidade no Brasil

Se tornar mãe representa uma mudança significativa na vida de uma mulher, pois apesar de ser um momento de extrema alegria e realização, também simboliza uma transição entre as fases da vida dela, pois a partir desse momento, sua principal e maior prioridade passará a ser cuidar de um indivíduo que não é capaz de responder por si mesmo.


E mesmo que saibamos que para se ter um filho, é necessário haver um pai que o gere, na prática, também é conhecido o fato de que a vida do homem não é tão fortemente impactada com a chegada de um filho como a da mulher, que além de lidar com as mudanças físicas, hormonais e psíquicas, também é socialmente compulsionada a acreditar que a responsabilidade pelos cuidados e tratos dos filhos é maior para a mãe do que para o pai.

Antigamente, mulheres eram hiperestimuladas a casar e ter filhos, muitas vezes ainda na pré-adolescência ou adolescência, sob argumentos como "a mulher amadurece mais cedo", "já está mocinha" e coisas semelhantes. Era civil e legalmente impedida de estudar, trabalhar ou ocupar cargos de liderança, poder e influência e acabava por ficar relegada aos serviços domésticos e ser dona de casa. 

Neste contexto, a mulher ficava com a maior carga no que se refere aos cuidados dos filhos e a preservação do lar, e a justificativa era de que o homem cuidava do sustento e era o provedor, portanto, o mínimo era que a mulher retribuísse e compensasse esse esforço sendo mãe, esposa e dona de casa. Como se não trabalhar, não ter renda própria e depender material, financeira e patrimonialmente de outra pessoa fosse uma escolha, e não uma imposição social.

No entanto, nos dias de hoje, a mulher do Brasil moderno, após muita luta e resistência a opressão e segregação sistêmica, conquistou o direito de escolher qual caminho prefere seguir, ainda que enfrentando a misoginia, o machismo, o sexismo e a importunação e assédio sexual diariamente. Mas ainda assim, mesmo dentro desta nova realidade, quando se trata da maternidade, ter filhos segue sendo um divisor de águas na vida da mulher.

Nesta publicação, discutiremos alguns temas relevantes relacionados a maternidade.

GRAVIDEZ E SAÚDE REPRODUTIVA 

Mulher grávida (Fonte: Magnific)

Nem sempre se tornar mãe é uma escolha da mulher, a questão reprodutividade feminina é, na realidade, um tema um tanto sensível por uma série de razões, e entre estas, a sexualização precoce de meninas na infância e na adolescência. Muitas vezes pessoas do sexo feminino são expostas a atos libidinosos e atividades sexuais antes mesmo de serem capazes de compreender do que se trata e tudo que isso pode implicar em sua vida, incluindo uma gravidez. 

O casamento infantil no Brasil se mostra um dos maiores responsáveis por maternidade compulsória no país, isto se deve ao fato de que a própria lei é dúbia na interpretação do que é considerado consentimento, o que favorece falhas na proteção de crianças e adolescentes de predadores sexuais. 

A idade de consentimento para se relacionar com um menor é de 14 anos, com permissão dos pais. Já a idade mínima para se casar é de 16 anos, também com permissão dos pais. Mas a maioridade no Brasil é de 18 anos, e somente com esta idade um indivíduo pode tirar carteira de motorista, consumir álcool e comprar cigarros legalmente, sendo portanto, considerado um indivíduo plenamente adulto e capaz.

O Brasil está sempre entre os dez países com maior ocorrência de casamento infantil no mundo, ficando normalmente entre o 4º e o 6º lugar a depender do ano do levantamento. De acordo com o Censo Demográfico de 2022 divulgado IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), são mais de 30 mil crianças e adolescentes com idades entre 10 e 14 anos vivendo em uniões conjugais, sendo obviamente, a esmagadora maioria meninas.

A questão social também é relevante, mulheres em situação de vulnerabilidade muitas vezes tem a tendência de acreditar que ser mãe e ter filhos é a única realização possível em suas vidas. E outro aspecto pouco falado, é o caso de garotas que sofrem abusos em casa, e veem no casamento e em constituir uma família tendo seus próprios filhos, uma possibilidade de fugir, escapar ou se salvar deste contexto de violência.

Gravidez na adolescência, gravidez indesejada e gravidez não planejada colocam a mulher em posição de vulnerabilidade financeira e emocional, além disso, também podem comprometer a saúde, qualidade de vida e estabilidade individual. Quando se tem filhos e é dependente financeira de um homem, pode se tornar mais difícil abandonar uma relação abusiva por não ter para onde ir ou condições de se sustentar.

Ademais, os métodos contraceptivos disponíveis para mulheres são, muitas vezes, de viés hormonal, e já é amplamente conhecido o fato cientificamente comprovado de que estes podem causar prejuízos à saúde da mulher, principalmente se usados a longo prazo. E ainda quando utilizados de modo adequado, podem falhar, sendo a recomendação mais típica combinar dois ou mais métodos para aumentar a eficácia.

Também é válido mencionar que a violência obstétrica sofridas durante o acompanhamento da gravidez e na hora do parto são outras problemáticas com as quais as mães são obrigadas a lidar, especialmente aquelas que mesmo não tendo condições de parir normal, são forçadas a dar à luz por essa via de parto, principalmente no SUS.

ABANDONO PATERNO

Independente das circunstâncias em que uma mulher se torne mãe, na maioria das vezes esse filho vem de um relacionamento que ela manteve com um homem, que pode ser um marido, noivo, namorado, ficante ou até mesmo um desconhecido.

O abandono paterno é extremamente comum e naturalizado no Brasil, entre 2010 e 2020, quase 2 milhões de crianças fizeram o registro de nascimento sem o nome do pai. Neste tipo de caso, este homem muitas vezes não participa financeira, material e emocionalmente da vida deste filho, a mãe desempenha ambos os papéis na vida do menor, o que a sobrecarrega.

Além disso, mesmo mulheres casadas podem acabar por se ver criando os filhos sozinha, pois mesmo vivendo na mesma casa que a esposa e os filhos, alguns maridos e pais não contribuem efetivamente nos cuidados e necessidades da casa e das crianças, principalmente se essa mãe não trabalhar fora, pois o homem se acomoda na ideia de que sendo o provedor, não há necessidade de fazer mais nada pela família.

MERCADO DE TRABALHO PARA MÃES

Trabalhar após se tornar mãe pode ser especialmente desafiador para a mulher, já que o mercado de trabalho preza produtividade e capital financeiro acima de qualquer coisa, incluindo a perpetuação da sociedade, a dignidade humana e o bem estar do menor.

Ao procurar por emprego, uma das perguntas mais repetitivas que as mulheres escutam é, "você tem filhos?", "pretende ser mãe?", "caso consiga o emprego, com quem vai deixar seus filhos durante o expediente?" que apesar se serem consideradas discriminação de gênero, ainda são comuns, e obviamente, homens raramente ouvem as mesmas coisas.

Mesmo quando a mulher passa pela entrevista e vai fazer o exame admissional, em caso de gestação muitas empresas cancelam o processo de contratação antes de finalizá-lo devido a isso. Em casos em que a mulher engravida já estando no emprego, outra prática comum é a dispensa após a licença maternidade, quando chega ao fim a estabilidade garantida por lei.

E quando a mulher inicia no emprego já tendo um filho, exercer o papel de mãe se mostra um imenso desafio, pois os horários de trabalho podem vir a conflitar com as demandas da criança, como consultas, entrada na escola, terapias e outros compromissos do menor que são de sua responsabilidade.

DONAS DE CASA ATUAIS

Mesmo que hoje em dia as mulheres no Brasil, principalmente em grandes metrópoles e capitais, tenham a liberdade de escolha e possam optar por se dedicar a estudos, trabalho, carreira, lazer, viagens e outras atividades, muitas decidem de livre e espontânea vontade viver "à moda antiga", se casando, tendo filhos e se dedicando exclusivamente ao lar.

Neste tipo de caso, a mulher se torna dependente financeira do marido e passa a sobreviver dos provimentos financeiros dele, que se torna responsável por todas as despesas, como moradia, alimentação, água, luz, Internet, vestuário, higiene e limpeza e enfim, todas as necessidades do casal e dos filhos. O problema disso é que, se esse homem for de classe C, D ou E (maior parte da população masculina do Brasil), ou seja, um assalariado, a renda dele pode não ser o suficiente para cobrir todas as necessidades de uma família. 

Além disso, em casos de separação, este homem pode passar a se recusar a sustentar esta mulher do dia para a noite, e até que o caso possa ser regularizado judicialmente, a mulher e mãe fica em situação de extrema vulnerabilidade social.

MÃES DE FILHOS COM NECESSIDADES ESPECIAIS

Mães que tem filhos com necessidades especiais, portadores de transtornos, deficiências, síndromes ou doenças vivem realidades especialmente duras no Brasil, especialmente levando em consideração as leis e políticas públicas voltadas para essa população.

Com a lei anti-manicomial as instituições públicas que mantinham pessoas com problemas mentais foram descontinuadas, motivadas por movimentos em prol dos direitos humanos e cidadãos destes indivíduos, e para evitar casos de abuso, desumanização e violência como os ocorridos em Barbacena, por exemplo.

No entanto, a pauta anti-manicomial acabou virando uma desculpa para o governo não precisar investir grandemente em hospitais psiquiátricos e centros clínicos especializados no trato de pessoas com necessidades especiais, transferindo toda a responsabilidade para as famílias, ou melhor dizendo, para as mães, pois convenhamos, são poucos os pais que se dedicam a cuidar de um filho com deficiência.

Essas mães, muitas vezes se dedicam aos cuidados dos filhos em tempo integral, sem ter possibilidade de trabalhar, estudar, praticar algum esporte ou ter lazer sozinha, e em alguns casos mais severos, ficam à mercê de surtos e crises violentas dos filhos.

MÃES SOLO E MOVIMENTOS MASCULINISTAS

O preconceito sofrido por mães solo, mulheres com filhos que os criam sozinhas e não tem um relacionamento, seja com o pai dos filhos ou com algum outro homem, sempre foi grande na sociedade, mas nos últimos anos, se tornou uma pauta frequentemente debatida na Internet.

Uma mulher pode se tornar mãe solo por inúmeras razões, como viuvez, divórcio, abandono de lar por parte do parceiro ou até mesmo por opção própria, muitas hoje em dia desejam se tornar mães sem ter um homem presente ou envolvido. Mas na Internet, grupos masculinistas que se autodeclaram Incel, Red Pill, Sigma e outros termos, rotulam, ofendem e humilham mulheres com filhos que não estão em um relacionamento motivados exclusivamente por esse fato.

Na mentalidade dos participantes desses grupos, a mãe solo é uma mulher devassa e de vida sexual promíscua, que se envolve sexualmente com qualquer homem sem critérios ou senso crítico, e tem múltiplos parceiros, sendo portanto, uma mulher de menos valor. Tudo isso não passa de uma generalização perigosa e desonesta que joga um grupo populacional inteiro num mesmo balaio sem considerar as particularidades de cada caso.

A mãe solo já é, muitas vezes, uma mulher cansada que precisa sozinha cuidar de si mesma e de um ou mais filhos, e cuidar engloba uma série de despesas, compromissos e necessidades cotidianas e essenciais para subsistência e qualidade de vida de uma família. Não bastando tudo isso, ainda lidam com descriminação, ódio e violência de gênero por serem mães. O mais interessante desse cenário é que, quando uma mulher opta por não ter filhos e expõe esta decisão publicamente, também é criticada. 

E sabendo-se que não há como garantir a permanência fixa de um parceiro em um relacionamento somente pela existência dos filhos, mães solo, que são quase metade das mães do Brasil, ficam expostas a desrespeito e estigmatização, além de tudo com o que já precisam lidar.

ASSISTENCIALISMO DO GOVERNO

O governo do Brasil oferece alguns auxílios para mães em situação de vulnerabilidade como o bolsa família, salário maternidade, BPC para crianças com necessidades especiais e outros, além disso, existem outros tipos de assistência como distribuição de cesta básica e gás de cozinha. 

Muitas crianças também estudam em escolas públicas integrais onde praticamente todas as refeições com as quais se alimentam são ofertadas pela instituição de ensino, e além disso, existem escolas que mesmo em períodos de férias escolares seguem ofertando a merenda nos horários convencionais.

As famílias que precisam desse tipo de apoio são em sua maioria chefiadas por mulheres negras, de baixa escolaridade e pertencentes as classes C, D e E. E apesar de existirem alguns casos em que há um pai presente na vida da criança, que paga pensão alimentícia, se tratando de outro cidadão de baixa renda, os valores são ínfimos e não verdadeiramente suprem as necessidades ou dividem por igual as responsabilidades para com a criança.

Neste cenário, a mãe acaba por viver junto ao filho em condições precarizadas e marginalizadas.

A ROMANTIZAÇÃO DA MATERNIDADE

Ser mãe é definitivamente um ato lindo de entrega, amor e realização pessoal, emocional e moral para uma mulher, mas além disso, é uma nova realidade que além de alegrias, pode trazer momentos de dor e sofrimento consideráveis, além de colocar a mulher em uma posição significativamente sensível.

A maternidade não é nada fácil, exige condições financeiras, planejamento emocional e, principalmente, uma rede de apoio que possa acolher e ajudar essa mãe e esse filho, o que muitas mulheres simplesmente não tem. Mesmo assim, existem pessoas que tentam vender uma propaganda da vida materna que não é a realidade da maioria das mães, o que gera comparações e frustração. 

Ser mãe é sim algo lindo e representa a constituição de um vínculo único, mas dependendo da forma com que as coisas acontecem, o momento que deveria ser um dos mais especiais e memoráveis pode acabar se tornando uma lembrança traumática.




A LIBRISIL

Librisil é um blog mantido pela escritora independente Sil Carvalho, e leva o mesmo nome da loja de produtos literários da autora.

Sil escreve livros de romance e já possui dois originais publicados, sendo que, em ambos a maternidade é explorada de maneira crua e realista, retratando as belezas, e também as nuances que a envolvem, sem romantizá-la. E em agosto de 2026, está previsto o lançamento de mais um livro de romance, e desta vez, a maternidade será tema central, e não secundário como nos dois primeiros. 

Você pode apoiar este trabalho, dando uma olhada nos produtos literários disponíveis aqui.

Algumas peças relacionadas ao tema desta publicação:

Camiseta Mãe e Filho, do livro Mulher Brasileira, com previsão de lançamento para agosto de 2026. Veja
aqui.

Camiseta Mãe e Filho (Fonte: Librisil)

Camiseta O Maior Amor do Mundo, do livro Mulher Brasileira, com previsão de lançamento para agosto de 2026. Veja aqui.

Camiseta O Maior Amor do Mundo (Fonte: Librisil)

Caneca Você e Eu, do livro Mulher Brasileira, com previsão de lançamento para agosto de 2026. Veja aqui.


Caneca Você e Eu (Fonte: Librisil)

Camiseta Vamos Seguir, do livro Intoxicado, disponível para leitura na Amazon. Veja aqui.

Camiseta Vamos Seguir (Fonte: Librisil)

Camiseta Com Amor, do livro O Bom Filho a Casa Torna, disponível na Amazon. Veja aqui.

Camiseta Com Amor (Fonte: Librisil)

Moletom Família, do livro Mulher Brasileira, com previsão de lançamento para agosto de 2026. Veja aqui.


Moletom Família (Fonte: Librisil)



















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