Maria Gabriele Mesquita da Silva, ex-colaboradora do Detran-MA, foi condenada pela Justiça do Maranhão a 4 anos e 2 meses de prisão em regime fechado pelo crime de racismo contra o jogador de futebol brasileiro Vini Jr.
Jogador de futebol Vini Jr (Fonte: Infomoney)
A motivação da denúncia que gerou a investigação e acabou por condenar a criminosa foi a publicação de materiais racistas nas redes sociais em outubro de 2025, como vídeos e mensagens com teor ofensivo e discriminatório sobre o atleta.
De início, as postagens foram feitas em formato de texto, mas não demorou para que surgissem vídeos em que Maria Gabriele expressava falas como: “homem feio é bicho que não presta para nada, ainda mais preto”; “preto é bicho amostrado”; “eu não namoro com preto nem para ganhar dinheiro”; “vocês podem até me ver com homem feio, mas com preto nunca”; “o que ter ser chamado de preto e que desgraça de cor é, menino, se não é preto. Vini Jr. não é preto, não?”.
E fica pior, pois a ex-colaboradora do Detran-MA voltou a fazer publicações racistas após a primeira ocasião relatada.
O juiz Diego Duarte de Lemos, da comarca de São Luís Gonzaga do Maranhão, em ação movida pelo Ministério Público, proferiu a decisão, que não apenas obriga a condenada a cumprir a pena de prisão, mas também estabelece que seja paga uma indenização por danos morais coletivos.
A decisão que encerra o caso foi proferida em março de 2026, mas voltou a ganhar repercussão recentemente após a condenação de Rodrigo Branco, também por racismo, contra a médica, ex-BBB e influenciadora Thelma Assis, em junho do mesmo ano.
A condenação de Rodrigo gerou polêmica nas redes sociais, principalmente pelo fato de que, em seu pronunciamento, o empresário recebeu grande apoio de várias celebridades brasileiras que curtiram e comentaram sua publicação, como atores, apresentadores e personalidades da mídia num geral.
O que provoca reflexão em ambos os casos é a tentativa que alguns fazem de minimizar crimes de racismo com justificativas como “foi só um erro”, “foi uma fala tirada de contexto”, “o criminoso foi mal interpretado” e falas semelhantes. É fato que a população brasileira tem dificuldade de entender que racismo não é só um erro ou falha cotidiana, e sim um crime, crime inafiançável inclusive.
Todos tem direito de ter opinião, e ninguém é obrigado a gostar de ninguém, no entanto, quando a razão para se ter desgosto por outra pessoa é a sua cor de pele e etnia, então sim, passa a ser racismo, e não um simples desgosto trivial.
O racismo sofrido contra Vini Jr e Thelma não fala só sobre os dois, tampouco sobre os criminosos condenados, mas reflete, na realidade, em toda a população negra do Brasil, que é também a maior parcela populacional do país.
Os dois casos tem bastante em comum, como por exemplo quando Rodrigo Branco, na live em que cometeu o crime, diz sobre Thelma “semana passada, que ela ganhou uma provinha, ficou se achando e humilhou todo mundo”. Já Maria Gabriele, em suas redes sociais, disse “preto é bicho amostrado mesmo! Nunca conheci um preto pra não ser amostrado!”.
Isso se relaciona muito com uma entrevista cedida por Taís Araújo ao podcast Quem Pode, Pod, de Giovana Ewbank e Fe Paes Leme, em que ela relata uma conversa que teve com um colega de trabalho branco, onde ele lhe disse: “Engraçado, eu não conheço nenhum negro bem sucedido que não seja prepotente e arrogante!”.
Taís então respondeu: “Vem cá, Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? Será que é você que não está acostumado a ver negros em lugares de poder e você só entende negro em lugar de subserviência?”.
E isso se relaciona muito com a impressão que pessoas brancas possuem sobre negros bem sucedidos, de que são arrogantes, prepotentes, amostrados, que se acham e humilham os outros, quando na verdade, é simplesmente um negro que não se enxerga nem se permitem ser tratado como menos, menos cidadão, menos ser humano e menos digno, e que impõe ser tratado como igual.
Faz muito pouco tempo que os negros do Brasil tem a possibilidade de ascender social e financeiramente, de ocupar posições de influência e estar num lugar de destaque, e ainda existe resistência a essa mudança em uma sociedade que é estruturalmente racista, em aceitar ver essa população fora de posições de servidão, marginalização e inferioridade perante o branco.
Outra similaridade entre ambas as ocorrências pode ser notada quando, no caso Vini Jr, Maria Gabriele diz “preto é bicho amostrado”, já no caso Thelma, Rodrigo Branco afirma “todo mundo tá votando nela porque ela é negra coitada!”.
Associar negros a bichos é uma manifestação de racismo que carrega forte influência do período escravagista, pois intelectuais e filósofos da época buscavam justificar a desumanidade e o horror da escravidão negreira propondo a ideia de que negros eram “seres humanos menos evoluídos”, e mais “próximos aos animais e a bestialidade”, portanto, não havia nada de errado em escravizá-lo e tratá-lo feito bicho. Pessoas em condição de escravizados eram anunciadas tal qual bois são atualmente, ressaltando características físicas, genética e de comportamento para vendê-los, o estado permitia ao cidadão branco colocar preço em vidas humanas.
Assim como a ideia do “negro coitado” que vem do fato de que após a abolição, o governo brasileiro não prestou quaisquer tipos de compensação, reparação ou apoio para que essas populações conseguissem se restabelecer após séculos de trabalho forçado, muito pelo contrário, em vez disso, o estado investiu em incentivos para trazer imigrantes europeus que substituíssem a mão de obra escrava, ou seja, preferiu pagar para que estrangeiros brancos viessem trabalhar no Brasil para não ter que dar oportunidade a negros brasileiros que já estavam aqui, e isso, inevitavelmente, os empurrou para uma camada marginalizada e injustiçada da sociedade.
Tudo isso unido a ideais de “paraíso racial” e “meritocracia”, que pregam que não há racismo, preconceito, discriminação e segregação racial no Brasil, que todos tem a mesma oportunidade e que a população negra não prospera porque não quer, são vitimistas e pessoas sem iniciativa (passivas), endossam o pensamento de “negro coitado” que racistas defendem.
O Brasil ainda tem muito a evoluir e mudar no que se refere a políticas públicas e educação antirracista, e casos como os de Vini Jr e Thelma, apenas escancaram isso.
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Em ambos os livros, as protagonistas femininas são mulheres negras que enfrentam o racismo e a estigmatização que a sociedade brasileira impõe a esta população, sendo Intoxicado um romance contemporâneo e O Bom Filho a Casa Torna um romance de época.
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