As creches são instituições de educação infantil, que atendem a crianças de 0 a 3 anos e desenvolvem atividades lúdicas e recreativas com o objetivo de ampliar suas capacidades no que se refere a sociabilidade, desenvolvimento motor, cognitivo e maturidade emocional.
Frequentar a creche não é obrigatório como no caso da escola regular, ficando a cargo dos pais e responsáveis decidir se matriculam ou não seus filhos, mas é obrigação do Estado garantir a existência de vagas para todas as famílias que desejarem fazê-lo.
Professora e alunos em creche (Fonte: Secretaria Municipal de Educação - Prefeitura)
E para além do viés educativo, as creches também ofertam cuidados como rotinas de banho, troca de fraldas, intervalo para sonecas e todas as refeições completas das crianças, o que devido a tenra idade dos alunos, acaba sendo essencial.
No entanto, quando se trata de um país subdesenvolvido como o Brasil, onde a maior parte da população pertence as classes C, D e E, ou seja, são assalariados e dependem de uma atividade remunerada para sobreviver, as creches, para muitas famílias, deixam de ser vistas somente como uma instituição de educação infantil e passam a ser consideradas por algumas famílias como "rede de apoio".
A rede de apoio representa um conjunto de elementos que visam apoiar o desenvolvimento infantil, reduzir sobrecarga parental e garantir a segurança, integridade e proteção da criança, e pode ser formada por familiares e parentes, serviços socioassistenciais do governo e iniciativas voluntárias e comunitárias.
A discussão em torno das creches poderem ou não ser consideradas redes de apoio tende a retornar quando chega o período de férias, e as instituições deixam de receber as crianças devido ao recesso escolar, que ocorre duas vezes ao ano, uma em julho e outra em dezembro.
A maior questão que surge com a chegada dessa época é:
E os pais que não tem com quem deixar os filhos nas férias? Como vão fazer para garantir o cuidado das crianças e trabalhar ao mesmo tempo?
Babás no Brasil são um serviço que, para muitas famílias, está acima do orçamento possível e considerado caro, pois como já pontuado, muitas das famílias que dependem de creches para ter com quem deixar os filhos ao trabalhar são de baixa ou média baixa renda, e não tem como dispor de cuidados infantis particulares.
E é por isso que, toda vez que chegam as férias de recesso escolar, muitas famílias defendem a ideia de que as creches deveriam permanecer abertas o ano todo sem pausas ou recessos, e outros vão além, e defendem a criação de creches noturnas também. A cidade de São Bernardo do Campo foi pioneira ao inaugurar a primeira creche noturna da Grande ABC em São Paulo, o objetivo é prestar apoio nos cuidados de crianças cujos pais ou responsáveis trabalham a noite.
Apesar de creches obviamente serem de grande ajuda para famílias que precisam trabalhar e não tem com quem deixar os filhos, muito se discute se passar a maior parte do dia em creches, e até mesmo o período da noite em alguns casos, é saudável para criança, e o quanto isto de fato a beneficia.
O convívio familiar na vida de uma criança é direito cidadão e humano, e no Brasil é garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, creches podem ser agregadoras no desenvolvimento emocional e cognitivo, assim como na socialização e comunicação do menor, mas não substitui a convivência e a criação de uma família estabilizada.
Durante a infância, é importante que a criança se reconheça como parte de um núcleo familiar organizado e que confie e reconheça seus pais ou responsáveis, e para isso, estar com os familiares é essencial, nesse sentido, a questão maior é: que tempo de qualidade uma criança que fica de segunda a sexta na creche em turno integral tem com a sua família? Sendo que a maior parte de sua semana, mês e ano, está sendo cuidada por pessoas estranhas.
Em outros casos, há famílias que em períodos de férias escolares colocam os filhos em colônias de férias, ou seja, nem mesmo durante o recesso a criança fica em casa e desfruta da companhia dos pais e de outros familiares como irmãos. Outras famílias, ainda que haja um responsável que fica em casa e não tem compromissos como emprego todos os dias, como uma mãe que é dona de casa e não trabalha fora, mesmo assim, optam por enviar a criança para a creche.
Cenários como esse também fazem surgir debates que colocam em dúvida o desejo e a vontade que alguns pais verdadeiramente possuem de estar com seus filhos, de se dedicar a eles e de passar tempo de qualidade ao lado da criança.
Ser pai e mãe não é apenas sobre se casar e ter filhos, é também sobre planejamento familiar, o que inclui questões como: tenho condições financeiras de sustentar e criar um filho com dignidade? Em caso de precisar trabalhar, com quem meu filho irá ficar? Meu emprego exige turnos e plantões noturnos, enquanto eu trabalho de madrugada, onde meu filho ficará?
É fato que a sociedade brasileira pressiona casais, em especial mulheres, a ter filhos desde muito cedo. Nenhum método contraceptivo é 100% eficaz em impedir uma gravidez, o acesso a esterilizações como laqueadura e vasectomia não é fácil pela rede pública de saúde e o aborto é crime. Portanto, nem todos que tem filhos, os tiveram porque quiseram e assim decidiram.
Mas é fato que o planejamento familiar possibilita a um casal ou até a um único indivíduo ter maior controle sobre a decisão de ter ou não filhos, e se sim, quando e como irá acontecer, além de quantas crianças irão chegar na família.
Mas para quem já tem um ou mais filhos, não adianta muito debater a questão de planejamento familiar, pois as crianças já existem e as famílias precisam de apoio e de alternativas de imediato, nestes casos, quando as creches entram de férias pode ser um desafio para alguns pais conciliar trabalho e cuidados parentais.
Vale lembrar que professoras e outros profissionais escolares e de creches também entram de férias, e assim como as famílias dos alunos, é importante ressaltar que os agentes da educação também tem suas próprias famílias e filhos para cuidar e passar tempo de qualidade, além de descansar da rotina exaustiva e extenuante que é cuidar de crianças pequenas e bebês.
Ampliar a disponibilidade de vagas em creches, assim como expandir a educação referente a planejamento familiar, trabalhando o tema em escolas, postos de saúde e universidades públicas é necessidade social urgente em muitas regiões.
Criar alternativas de ensino e cuidado de crianças e bebês cujas famílias não podem nem conseguem lidar em períodos de férias escolares e em turnos de noite e madrugada pode acabar se tornando uma demanda cada vez mais recorrente no Brasil.
A LIBRISIL
Librisil é um blog mantido pela escritora independente Sil Carvalho, e leva o mesmo nome da loja de produtos literários da autora.
Sil escreve livros de romance e já possui dois originais publicados, sendo que, em ambos a maternidade é explorada de maneira crua e realista, retratando as belezas, e também as nuances que a envolvem, sem romantizá-la. E em agosto de 2026, está previsto o lançamento de mais um livro de romance, e desta vez, a maternidade será tema central, e não secundário como nos dois primeiros.
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Algumas peças relacionadas ao tema desta publicação:
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