Thelma Assis é uma médica anestesista que ganhou fama nacional ao participar do BBB20 e ganhar. Após isso, passou a ser presença frequente na programação da Rede Globo de Televisão, que é a produtora do reality show, tendo apresentado o programa Bem Estar e participado de outros títulos da emissora várias vezes, além de construir uma carreira como influenciadora digital, também fez publicidades para várias marcas e empresas.
Thelma Assis, também chamda de Thelminha (Fonte: O Globo)
Recentemente, a comunicadora chamou a atenção ao revelar que venceu um processo por racismo contra um empresário chamado Rodrigo Branco, que proferiu falas racistas contra ela em uma live realizada em 2020, quando Thelma ainda estava confinada no BBB e não tinha como se defender.
Rodrigo, em uma live no Instagram com a influenciadora Ju de Paulla, discutia sobre o reality quando disparou uma série de ofensas de cunho racial não só contra Thelma, mas também contra a jornalista Maju Coutinho. Em suma, o empresário defendia o argumento de que ambas não possuíam mérito em suas conquistas, e que só conseguiram chegar onde chegaram por serem negras.
Confira:
"[...]
Ju de Paulla: Eu torço pela Thelma!
Rodrigo Branco: Não, a Thelma nem pensar! Gente, posso falar uma coisa? Torcer pela Thelma é racismo.
Ju de Paulla: O que?
risos
Ju de Paulla: Nossa (inteligível) você vai ser muito criticado...
Rodrigo Branco: Eu não vou nada, porque é o seguinte, todo mundo tá votando nela porque ela é negra coitada!
Ju de Paulla: Claro que não garoto...
Rodrigo Branco: É sim!
Ju de Paulla: A Thelma é maravilhosa, você não assiste o Big Brother!
Rodrigo Branco: Claro que eu assisto! Posso falar? Ela semana passada, que ela ganhou uma provinha, ficou se achando e humilhou todo mundo! E aí?
Ju de Paulla: Claro que não! A Mari foi super errada falando que deu a prova para ela. A Mari não deu prova para ninguém, ela saiu porque ela quis!
Rodrigo Branco: Não, não, não! Quer ver, por exemplo... é a mesma coisa que eu falo da Maju Coutinho. A Maju Coutinho ela é péssima, ela é horrível! Ela é péssima, ela é horrível! Ela fala tudo errado (inteligível). Ela só tá lá por causa da cor! É o oposto.
Ju de Paulla: Eu não tô acreditando nisso que você tá falando...
Rodrigo Branco: É verdade! A carreira dela, qual foi a carreira dela? A carreira dela foi ela ser xingada! Todos por Maju... não sei o que por Maju! Ela não tem uma carreira, ela nunca foi repórter de campo, ela fala tudo errado! [...]
Thelma processou Rodrigo por racismo na época, e desde então esteve lutando para conseguir justiça, mas somente em junho de 2026, seis anos mais tarde, a Justiça de São Paulo reconheceu que as falas do empresário carregam racismo estrutural, desmerecem a trajetória profissional de Thelma e reduzem seus méritos a sua cor pele. A ex-BBB receberá 40 mil reais de indenização por danos morais, além de juros e correção monetária.
Depois da sentença vir a público, tanto vítima quanto criminoso (porque racismo é crime e ele já foi condenado) vieram a público para falar sobre o caso, e o que chamou muito a atenção, foi o grande número de celebridades e artistas que declararam apoio a Rodrigo e ignoraram a publicação de Thelma, que celebrava a justiça ter sido feita.
Apresentadores de TV, atores, modelos e várias celebridades brasileiras comentaram na publicação de Rodrigo no Instagram, demonstrando apoio e enviando palavras de conforto, como se fosse ele próprio a vítima e não o condenado. Alguns, mais covardes, apenas curtiram a publicação sem comentar, numa demonstração de apoio mais discreta, querendo endossar o posicionamento do empresário, mas sem perder a parcela antiracista do público que os apoia ao mesmo tempo.
O caso Thelminha escancara um sentimento de resistência que a mídia e imprensa brasileira tem em aceitar negros em posição de evidência. Ao longo de suas 26 edições, o maior reality show do Brasil premiou vencedores negros apenas 5 vezes desde que passou a ser produzido pela Globo, sendo Thelma Assis a 4a ganhadora autodeclarada negra.
Dentro da casa mais vigiada do Brasil, Thelma enfrentou situações racistas e foi criticada por se posicionar, como por exemplo, no caso mencionado por Rodrigo na live em que cometeu o crime. Na ocasião, após Thelma vencer uma prova da dinâmica do jogo, outra participante, Mari, que é uma mulher branca, alegou que a vitória se devia ao fato dela ter "dado a prova para Thelma".
Thelma não gostou de saber disso e foi tirar satisfações, deixando claro que sua vitória era um mérito seu e de mais ninguém. E ao fazer isso, ela não humilhou Mari nem outros participantes como Rodrigo alegou na live com Ju de Paulla, apenas se defendeu de alegações que a diminuíam como jogadora.
Esta situação em específico lembra uma fala de Taís Araújo, uma das maiores atrizes negras do Brasil. No podcast apresentado por Giovana Ewbank e Fê Paes Leme, Taís disse já ter ouvido de um colega de trabalho a seguinte frase: "Engraçado, eu não conheço nenhum negro bem sucedido que não seja prepotente e arrogante!", em resposta, ela teria dito "Vem cá, Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? Será que é você que não está acostumado a ver negros em lugares de poder e você só entende negro em lugar de subserviência?"
A fala de Taís se relaciona com o caso de Thelma no BBB, Rodrigo afirma que a médica "humilhou todo mundo" por se impôr e se posicionar após ter sua capacidade colocada em dúvida, mas na realidade, ela quem foi atacada primeiro e apenas reagiu a isso.
A ideia de que o negro bem sucedido é prepotente e arrogante vem do fato de que o Brasil, último país do mundo a abolir a escravatura, não está acostumado a ver negros vencendo, ganhando e em lugar de destaque. Isso faz com que muitas vezes as conquistas de pessoas negras sejam minimizadas, diminuídas ou associadas a pessoas brancas, e quando o negro reage e rejeita esses rótulos, é taxado de arrogante e prepotente e acusado de humilhar os outros.
Até pouco mais que 130 anos atrás, antes da assinatura da Lei Áurea, o negro no Brasil não tinha direito a dizer o que pensava, como se sentia e tampouco de fazer o que queria dá própria vida, pois ficava relegado a trabalhos braçais forçados, uma vida cativa e violência em caso de rebeldia. Este cenário não faz tanto tempo, e hoje, a sociedade brasileira ainda resiste a ver tal realidade mudar.
Ainda a respeito da fala de Mari sobre ter "dado a prova a Thelma", e também mencionando as alegações de Rodrigo Branco sobre a médica só ter torcida no BBB por ser uma "negra coitada" e sobre Maju Coutinho só estar onde está por conta do movimento Somos Todos Maju* e da cor de sua pele, pode-se relacioná-las a famosa teoria Complexo do Branco Salvador.
Complexo do Branco Salvador** (ou Síndrome do Branco Salvador) é um comportamento tipicamente visto em pessoas brancas que tentam adotar a posição de "heróis", "defensores" ou "salvadores" de populações não brancas, retirando o protagonismo destes indivíduos dentro de suas próprias histórias. Deste modo, endossam o conceito de superioridade branca, perpetuam a ideia de incapacidade e de estereótipos raciais, como se o não-branco fosse incapaz de conquistar as coisas, ocupar espaços e lutar por si mesmo, dependendo de alguém branco que o apoie para conseguir fazê-lo.
Dentro desta perspectiva, no caso da Thelma e da Mari no BBB, ela, uma mulher negra, só pôde conquistar a vitória da prova no reality porque Mari, participante branca, teve a benevolência de desistir e deixá-la vencer. Do mesmo modo é a análise com Maju Coutinho, ela só se tornou uma das maiores jornalistas do país e âncora dos principais jornais e programas da emissora com maior índice de audiência nacional porque pessoas brancas participaram do movimento Somos Todos Maju*, e a apoiaram apenas por ser negra.
Essas alegações sequer fazem sentido, negros no Brasil são minoria. E quando se fala em minoria, não é sobre a quantidade total de pessoas, mas a parcela populacional influente. É fato que os negros (pretos e pardos) são a maior parte da população do Brasil, correspondendo a mais da metade da população, no entanto, a maior parte dessas pessoas vive de forma precarizada e marginalizada, com baixa escolaridade, pouco acesso a educação e saúde de qualidade, além de menor expectativa de vida. Poucos negros estão em posição de poder, lugares de liderança, cargos públicos e políticos, grandes empresários ou pertencentes as classes sociais B e A, de alta renda.
Há quem diga que ocupar essas posições é mera questão de esforço, interesse e força de vontade, defendendo a ideia de meritocracia, mas sabe-se que isso não é verdade. Desde a conquista do Brasil, os negros se tornaram parte da população do território por serem traficados para fins de trabalho forçado e foi assim por quase 400 anos. Após o fim da escravidão, negros não receberam nenhum tipo de apoio ou incentivo para se inserir na sociedade, tampouco algum tipo de reparação ou ressarcimento por todos os séculos de trabalho forçado e não remunerado, assim como crimes hediondos como estupro e assassinato e também práticas de tortura como ser chibatado em troncos.
Muito pelo contrário, alguns, sem outras alternativas de sobreviver, permaneceram trabalhando em condições análogas a escravidão mesmo após a abolição, sendo forçados pelas circunstâncias a oferecer seus serviços em troca de comida e moradia. Outros se uniram em quilombos e fizeram pequenas comunidades de agricultura familiar independente, sem receber qualquer tipo de suporte financeiro, material ou emocional, e ainda sendo perseguidos por políticas e governos racistas e segregacionistas.
Não faz sentido defender a ideia de que a escravidão, o racismo e a segregação social de negros ficou no passado e hoje somos todos iguais, pois enquanto os brancos são considerados cidadãos desde a conquista do Brasil por Portugal em 1500 e a ocupação e exploração do território em 1530, os negros só passaram a ser vistos como cidadãos com a abolição em 1888.
Como atualmente ambas as populações podem ser consideradas iguais em capacidade, poder e acesso? É o mesmo que organizar uma corrida colocando um candidato na linha de largada e outro mais de 500m atrás, e depois que o candidato que está na linha de largada desde o início ganhasse, dizer que o que começou em desvantagem perdeu porque não se esforçou o suficiente, mesmo estando muito atrás antes da corrida começar.
Ninguém é obrigado a gostar da Thelma ou da Maju, mas atribuir o sucesso e as conquistas das duas a cor da pele é um absurdo.
O pior é ver pessoas que optam por não se posicionar politicamente na maior parte do tempo, que não declaram voto a candidato nenhum, que não são oposição a partido nenhum, que não divulgam pautas de justiça social e progressismo, que não se pronunciaram acerca do fim da escala 6x1, por exemplo, ESCOLHENDO usar sua voz e sua imagem públicas para apoiar abertamente um condenado por racismo.
Todos são livres para escolher expôr sua posição política, assim como também são livres para escolher não fazer isso por quaisquer que sejam suas razões. Mas é importante deixar claro que, apoiar um condenado por racismo e ignorar o pronunciamento de uma vítima de racismo também é uma opinião política, que deixa claro qual a posição da pessoa que o faz.
Racismo não é "só um erro", "uma declaração infeliz" ou uma "fala mal interpretada". É um ideal que faz parte do caráter, da personalidade e do indivíduo em si que o comete. Mais que isso, é crime, e quem pratica é criminoso.
Já com relação ao apoio público que diversas celebridades optaram por dar a Rodrigo Branco, além do ditado popular "Diga-me com quem andas que te direi quem és.", pode-se também utilizar algumas passagens bíblicas para analisar toda a situação e contexto, como:
"O que anda com os sábios ficará sábio, mas o companheiro dos tolos será destruído" (Provérbios 13:20);
"Não se deixem enganar: as más companhias corrompem os bons costumes" (1 Coríntios 15:33);
"Não se associe com quem vive de mau humor nem ande em companhia de quem facilmente se ira; do contrário, você acabará imitando essa conduta e cairá em armadilha mortal. (Provérbios 22:24,25).
Aqueles que preferem andar ao lado de um racista e apoiá-lo, mesmo após condenação pelo crime, o fazem porque se identificam com ele, e esse apoio público representa o que chamam de "pacto da branquitude", fenômeno em que grupos de pessoas brancas se unem e se protegem visando minimizar o impacto e o efeito de seus atos racistas.
Em 26 edições do BBB, somente 5 participantes negros venceram o reality show, contando com a Thelma Assis. De acordo com Perfil Racial da Imprensa Brasileira, somente 20% dos jornalistas do país se autodeclaram pretos ou pardos, sendo que em sua maioria estes profissionais atuam em cargos operacionais (repórter de campo, mesma função mencionado por Rodrigo Branco ao cometer racismo contra Maju Coutinho, alegando que ela não o tinha feito antes de se tornar âncora do jornal). As posições de redação e gerenciais são ocupadas em esmagadora maior parte por jornalistas brancos.
É possível contar nos dedos a quantidade de apresentadores negros que trabalham em rede nacional na Globo atualmente, são 6, sendo estes: Maju Coutinho (Fantástico, junto a Poliana Abritta), Thiago Pereira (É de Casa, junto a Maria Beltrão e Talitha Morete), Karine Alvez (Esporte Espetacular, junto a Lucas Gutierrez), Heraldo Pereira (Bom dia Brasil) e a Thelma Assis (pautas de saúde do Encontro com Patrícia Poeta). Outros nomes de profissionais negros aparecem em programação local (somente um estado, cidade ou região).
Todo o restante da programação de rede nacional da Globo é apresentado por profissionais brancos como Thiago Scheuer (Hora Um), Ana Paula Araújo (Bom dia Brasil), Roberto Kovalick (Jornal Hoje), César Tralli e Renata Vasconcellos (Jornal Nacional), William Bonner e Sangra Annenberg (Globo Repórter). Já nos principais programas de entretenimento e variedades estão Luciano Huck (Domingão com o Huck), Serginho Groisman (Altas Horas), Marcos Mion (Caldeirão) e Tadeu Schmidt (Big Brother Brasil), Ana Maria Braga (Mais Você), Encontro (Patrícia Poeta).
Mulheres negras correspondem a uma das populações humanas mais desvalorizadas da história do mundo, e atualmente, são o grupo que possui os piores indicadores socio-econômicos, a maior precarização das condições do trabalho, os menores salários, além de serem as maiores vítimas de violência. Continuamente são invisibilizadas e seus direitos são pouco explorados, patrocinados e colocados em voga, sendo a parcela populacional considerada a base da sociedade. De todos os ganhadores que o BBB já teve, e de todos os jornalistas e apresentadores que trabalham em rede nacional na Globo, se incomodar justamente com duas mulheres negras que estão em evidência, e não só isso, levantar a voz contra elas, não é somente um erro. É uma escolha, que carrega um significado repleto de camadas e intenções por trás.
Declaro todo o apoio a Thelma Assis, por abrir portas para outras personalidades negras do Brasil na mídia e imprensa nacional, por ser representatividade negra na televisão brasileira e por ter tido coragem para não desistir do processo em busca de justiça, mesmo com tantos contra sua causa.
Todos Somos Maju* - foi um mutirão de solidariedade e uma campanha de apoio pública, promovida em favor da jornalista Maju Coutinho, após ela ser alvo de comentários racistas e de ódio nas redes sociais em 2015. Na época, a jornalista participava do jornal nacional, e atuava na previsão do tempo.
Complexo do Branco Salvador** - muito retratado em filmes, novelas e séries onde uma população não-branca é retratada sob a ótica de um protagonista branco, que os guia, ensina a respeito de seus grupos sociais e direitos e luta para libertá-los da opressão, ao mesmo tempo em que os mantem em papéis secundários/coadjuvantes e minimiza suas capacidades de obter conquistas e acessar espaços por conta própria. Também ocorre muito em atividades humanitárias e de caridade, onde pessoas brancas vão a locais com populações vulneráveis ou em situação de pobreza como países do continente africano e fazem vídeos e fotos de suas doações, expondo a imagem das pessoas.
A LIBRISIL
Librisil é a loja de produtos literários da escritora iniciante Sil Carvalho, lá você encontra produtos personalizados com base em suas obras, sendo que atualmente a autora possui dois originais publicados de forma independente na Amazon.
Em ambos os livros, as protagonistas femininas são mulheres negras que enfrentam o racismo e estigmatização que a sociedade brasileira impõe a esta população, sendo Intoxicado um romance contemporâneo e O Bom Filho a Casa Torna um romance de época.
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O Moletom Pertenço é um produto literário do romance contemporâneo Intoxicado. A estampa traz a frase estilizada "eu pertenço apenas a mim mesma" e ilustrações de flores e do símbolo do gênero feminino em tom vermelho vivo. A peça possui variações nas cores preto e branco. Confira aqui.
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Camiseta Força e Coragem (Fonte: Librisil)
A Camiseta Vamos Seguir é um produto literário do romance contemporâneo Intoxicado, disponível para leitura na Amazon. A estampa traz a frase "vamos seguir um passo de cada vez, apenas um", junto a ilustração de uma rosa, em tom vermelho vivo. A peça possui variações nas cores branco, preto, azul, amarelo e verde. Confira aqui.
Camiseta Vamos Seguir (Fonte: Librisil)
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